terça-feira, 4 de setembro de 2012

Don't leave me alone

Ela estava sentada no meio fio, na calçada em frente a sua casa. Seus cabelos longos estavam presos em um rabo de cavalo mal feito. Nos pés cansados, o bom e velho converse. Suas roupas estavam amassadas por ter passado a noite inteira com elas. Na face, a maquiagem já não fazia o mesmo efeito de sempre - deixá-la ainda mais bonita.
- Eu vim assim que vi sua mensagem. - A garota ouviu a voz que mais lhe acalmava no mundo. O seu refúgio, seu porto seguro, seu melhor amigo. Ela havia mandado uma mensagem para o celular dele às 3h30 da manhã. Não queria ligar para não acordá-lo. Mandou, então, a seguinte frase "Quando acordar, venha até minha casa. Preciso de você." - Você quer me contar o que aconteceu?
Ela negou com a cabeça. Só de pensar que dentro de algumas semanas estaria longe do amor da sua vida, as lágrimas gritavam por invadir seus olhos novamente.
- Você quer um abraço? - Ela poderia sorrir. Oh, como ele a conhecia bem! Melhor do que ela mesma! O menino sabia que quando ela estava mal, era melhor perguntar antes de abraçá-la. Abraços a faziam chorar. E tudo o que ele menos queria na vida era ver a sua garota chorar ou sofrer.
Dessa vez, ela assentiu, se jogando nos braços dele para um abraço apertado.
Depois de algum tempo, ainda sentados no meio fio, ela resolveu que era hora de contar tudo à ele. A menina já havia se acalmado, não estava chorando, nem tremendo. Apenas... triste.
- Eu... Não sei por onde começar. - Ele a olhou compreensivo e esperou que ela estivesse pronta. Pegou em sua mão, o que deu forças a sua amiga - Meu pai recebeu uma proposta de emprego num jornal muito prestigiado...
- Nossa! Que bom, ele estava procurando outro emprego faz tempo.
- Pois é. Eu estou feliz por ele. Muito. Você sabe o quanto - Ele assentiu - Mas... Esse jornal é de Londres. E nós vamos nos mudar pra lá.
Com a cabeça baixa, ela não se permitiu olhar a reação dele. E pareceu que havia passado décadas, até ele resolver falar alguma coisa.
- Você... Vocês vão morar lá? É isso? Você vai... Me deixar?
Ela não conseguiu responder. Nenhum som. Nenhuma palavra. Tentou segurar as lágrimas, mas também não conseguiu. 
- Eu não acredito nisso. - Ele se levantou devagar. Passou as mãos nos cabelos e olhou pro céu, como se pedisse ajuda. Ele não poderia perdê-la. 
- Londres não é tão longe. - Ela disse e depois se arrependeu. Ela só não sabia o que dizer. Londres não era realmente muito longe... Mas era longe demais pra ela aguentar ficar sem ele. - Desculpe... Eu não sei o que dizer. - Foi sincera. Sempre era sincera com ele. Menos quando se tratava de um assunto. - Levantou da calçada também, ficando em pé ao lado do melhor amigo. 
- Quando você vai? - Ele perguntou, após alguns segundos.  Ainda não tinha olhado nos olhos dela.
- Três semanas. - Foi só o que disse.
- Eu tenho três semanas com você... É isso?
- Não é bem assim. Vamos nos ver nas férias. E em alguns feriados. E podemos nos falar todos os dias... Se você quiser. - Ao contrário do costume, dessa vez, foi ela quem tentou amenizar a situação. Fazê-la parecer menos dolorosa.
- Eu sei disso. Você não entende... Não vai ser mais a mesma coisa. Sabe disso, não sabe? 
Ela sabia. É claro que com o tempo eles iam acabar se afastando. E essa era uma das coisas que mais lhe machucava. Como ela queria simplesmente dizer a ele tudo o que sentia de verdade. Mas não podia fazer isso... Não agora. Prestes a ir embora. 
- Eu queria poder fazer alguma coisa. Queria ficar aqui com você.
- Eu sei disso também, meu anjo. Sei que você não quer ir tanto quanto eu não quero deixá-la ir. Então... eu posso te pedir uma coisa? - Ela tremia sempre que ele lhe chamava de "meu anjo". Finalmente, ele a olhou nos olhos. Castanhos. Ambos. Intensos. 
- Claro.
- Vamos nos falar todos os dias, obviamente - Ela sorriu - Vamos nos ver todos os feriados, todas as férias.  E... - Ele hesitou. 
- E...? - Por que diabos o coração dela estava batendo mais forte do que o de costume? Ela teve até medo que ele ouvisse.
- Vamos aproveitar essas suas últimas três semanas aqui. Só eu e você. - Ele chegou mais perto e pegou em sua mão. A menina se arrepiou.
Aquilo não estava acontecendo, certo?
Ela só podia estar sonhando... 
- Todo esse tempo eu guardei um segredo. O único que não tive coragem de te contar, mas acho que chegou a hora. - Ele engoliu em seco - Eu sou completamente apaixonado por você. 
Assim. Na lata. Sem nenhum aviso prévio.
Ela com certeza estava sonhando. 
Não, não estava. Aquilo era a mais simples e pura realidade. 
- Eu... Eu te amo. - Ela disse também. Direta. Igual a ele. 
E depois, se aproximou ainda mais dele. Ele a acolheu com seus lábios. Primeiro, um roçando no outro levemente. Depois, pequenos movimentos. Mas quando sua língua tocou a dele pela terceira vez em sua vida, ela mal pode conter a alegria. Os dois iniciaram um beijo caloroso, cheio de paixão e amor. Amor de amigo. Amor de amante.